Fique de olho na Obesidade Infantil!

Por Viviane H. Ferreira Rossi
Psicóloga – CRP 56900

Infelizmente, a obesidade infantil no Brasil vem crescendo bastante nos últimos anos. Os dados impressionam: uma a cada duas crianças estão acima do peso, sendo 40% delas entre 5 a 10 anos de idade*. Causas multifatoriais colaboram para esta triste situação dos pequenos: fatores biológicos, sociais, comportamental, psicológicos, alimentares e habituais.

Quanto maior a ingestão de açúcar e gordura, maiores são as chances de desenvolvimento de doenças como diabetes, problemas respiratórios, hipertensão, acúmulo de LDL (o colesterol ruim, danoso ao organismo). Essas enfermidades, antes associadas à pessoas adultas e idosas agora atingem as crianças.

Uma situação acaba levando à outra. Quanto mais as crianças ingerem alimentos ricos em açúcar e gorduras, mais desejam ingeri-los. Produtos assim, geralmente saciam a fome momentaneamente, o que faz com que a criança sinta vontade de comer mais vezes. Quanto menos exercícios físicos, fazem, menos vontade elas tem de fazer, mais preguiça e indisposição elas apresentam.

Para mudar esse quadro, faz-se necessária uma profunda modificação de estilo de vida: adoção de exercícios físicos, aliada a uma alimentação mais saudável, mudanças de hábitos e políticas sociais mais incisivas.

Dados de pesquisa mostram que mais da metade das crianças de 1 a 12 anos tem vida sedentária, praticando menos de 5h de atividade física por semana, sendo que 56% dessas crianças são meninas. Por outro lado, tristemente, 75% das crianças de 7 a 12 anos passam 4h por dia diante de telas (televisão, computador, videogame, tablets e celulares), o dobro do recomendado e muito mais do que em atividades físicas*. À partir de 2 anos, as crianças, ao invés de correrem, pularem, dançarem, nadarem, ficam diante de telas, sendo que, neurologicamente falando elas não precisam de absolutamente nada eletrônico para se desenvolverem.

Tais comportamentos contribuem em muito para as estatísticas em obesidade crescerem tanto. Em muitos lares, as crianças se alimentam solitariamente diante da televisão. Esse hábito, faz com que elas nem prestem a devida atenção ao sabor e à quantidade de alimentos que ingerem, comendo mais pelo tempo de programação televisiva do que por necessidade e prazer. Além disso, as famílias perdem os preciosos momentos da refeição, deixando de conversar entre si e de se conhecerem melhor. Em muitos lares, todos almoçam diante da tv sem dialogar, como se estivessem em linhas paralelas que não se cruzam jamais… Estão lado a lado, mas não estão juntos verdadeiramente. Ao se alimentarem diante da televisão, as pessoas tendem a gostar de produtos ricos em açúcar e gordura, que tem o sabor enaltecido.

Há que se pensar que o comportamento das crianças também é um reflexo do que os adultos fazem. Os pais de hoje trabalham muito mais do que antigamente, pois carregam computadores e celulares por onde vão. E, mesmo quando não estão trabalhando ao telefone, o carregam e o utilizam como forma de lazer e entretenimento, deixando de estar com a família verdadeiramente e se alimentando muito mal, sempre com pressa, munidos de algum equipamento eletrônico.

A missão de combater a obesidade infantil é de todos. Os pais precisam promover bons hábitos alimentares, comprando e ingerindo alimentos mais saudáveis e menos calóricos. Também devem incentivar atividades físicas e encantar e inspirar os filhos para prática de brincadeiras ao ar livre e que promova o movimento, como correr, pular, dançar nadar (atividades que todas as crianças tendem a gostar, mas que ficam esquecidas e desvalorizadas). A indústria tem seu papel no desenvolvimento de fórmulas com mais nutrientes saudáveis, com menos gorduras e açúcares. E, por fim o governo tem seu papel na promoção de políticas públicas e incentivo a ocupação de espaços abertos como praças e parques.

Finalmente, é preciso pensar na autoestima da criança baseada na autoimagem e experiências vividas no meio familiar e social. Quando percebe que não consegue controlar sua ansiedade de comer, a criança tem a sensação de incapacidade e de impotência. Por outro lado, quando os adultos a auxiliam e ela consegue controlar seus desejos de alimentação, realiza atividades físicas que proporcionam prazer e superação de desafios, tem maiores benefícios para sua autoestima, autoconfiança e segurança, fundamentais para seu desenvolvimento físico, emocional, profissional e social no futuro.

*Fonte: The InfantandKidsStudy (IKS), realizada na região metropolitana de São Paulo, envolvendo 1000 crianças de 0 a 12 anos, de todas as classes sociais, apresentada no fórum Diálogos de Valor, iniciativa da Nestlé, 2016